Uma viagem que todos deviam fazer

 

“Tu não mudas o Nepal, mas o Nepal muda-te a ti”.


Foi com esta frase que parti, na Rota do Eu, organizada pela InsightOut, rumo ao Nepal. Confesso que na altura não percebi o alcance da mesma. Achei que era apenas um claim publicitário bem conseguido. Mal sabia eu que estava prestes a iniciar um processo de mudança sobre o qual ainda não tenho distância suficiente para percepcionar todas as suas ramificações.

O que fez desta viagem algo tão especial?

Desde logo, o facto de ser uma viagem. Viajar faz-nos bem. Desenvolve a empatia e dá-nos perspectivas diferentes. Com cada viagem ganhamos maior consciência de que a realidade não existe. Apenas existem mapas mentais da realidade, que mudam com o espaço e com o tempo e que são profundamente influenciados pela existência ou não de um observador externo. Viajar é como um tónico que nos transporta para um plano superior e nos concede visão de helicóptero.

Depois, temos o país em si, o Nepal. Um país de uma beleza natural inesgotável. Um país rico em recursos, mas entrincheirado entre os dois grandes tigres asiáticos (China e India), em que um só não o devora porque o outro nunca o permitiria. Um povo que vive por isso permanentemente entre a espada e a parede, sem sequer permanecer sobre chão sólido, já que é regularmente fustigado por terramotos, tendo sido o último apenas há 2 anos. É um país onde impera a miséria. E no entanto, não é isso que vemos. O que nos absorve e hipnotiza são os sorrisos. Gente que, de acordo com os nossos standards, tinha tudo para se sentir miserável, afinal brinda-nos com sorrisos rasgados e generosos. Que cultura tão diferente da nossa. Um povo fortemente influenciado pela filosofia budista, onde as pessoas praticam diariamente a meditação, a compreensão, a bondade. E isso sente-se. Respira-se. E transforma-nos.

Mas o grande impacto adveio do facto de ter viajado, ao Nepal, na Rota do Eu. Com a organização irrepreensível da maravilhosa Ana Pinto Coelho. Com a orientação inspiradora do genial Lama Gustavo Preto Pacheco. Com a companhia genuína de um grupo insubstituível de viajantes, que se recusam a acomodar na vida e que ambicionam a descontrução do eu e incansavelmente procuram os seus propósitos. Mais do que uma viagem a um país distante, esta foi uma viagem ao meu interior. A reencontrar-me com a criança que há em mim, com os seus sonhos, a sua alegria de viver. A vislumbrar o ancião que serei, mais sábio seguramente que sou agora. E a reconciliar-me com o homem que sou hoje, aprendendo a aceitar-me, mas ciente de que acima de tudo, são os atos que me definem. E apenas quando os meus actos forem plenamente movidos pela compaixão e bondade poderei um dia dizer: se morrer hoje, morrerei com um sorriso nos lábios.

Esta é uma viagem que todos deveriam fazer. A viagem ao seu interior. Pode não ser no Nepal, pode não ser em grupo, pode não ser com a InsightOut. Mas já dizia a antiga campanha publicitária: “poder podia, mas não seria a mesma coisa”.